Por Giovanni Sonnberger - 24 de fevereiro de 2026
Paradigma Indiciário: Entenda UX e Product Design conhecendo um médico de 1880 que se passava por um russo!
Este é um artigo do jeito que gosto de escrever: tem falsificação de arte, pseudônimos e uma lição vital que quem entra na área de UX e Product Design sofre para entender: afinal, o que nos destaca de outras carreiras digitais? Somos de exatas ou de humanas? Como realmente usamos os dados que analisamos em nossas descobertas?
O Mistério de Ivan Lermolieff
Para entender isso, vamos fixar nossa âncora temporal em 1880 e conhecer o Sr. Ivan Lermolieff. Mais tarde, o mundo descobriria que ele era, na verdade, um médico italiano chamado Giovanni Morelli (meu xará de alguns séculos atrás).
Naquela época, a falsificação de arte era comum. Sem tecnologia de ponta, especialistas tentavam identificar obras originais pelo “estilo geral”, mas o método falhava muito. Morelli percebeu que todos estavam olhando para o lado errado e resolveu criar seu próprio método.
Ele usou um pseudônimo russo por acreditar que o mundo da arte não daria crédito a um médico (afinal, a medicina estaria “fora” desse universo). Guarde essa informação; ela será o segredo do nosso sucesso logo mais.
A Bomba: O Paradigma Indiciário
Se você ainda não percebeu o que tudo isso tem a ver com UX e Product Design, tudo bem. A cartada final veio quase 100 anos depois, em 1979.
Nesse ano, o historiador Carlo Ginzburg sistematizou essa ideia no ensaio “Sinais: Raízes de um Paradigma Indiciário”. Ginzburg percebeu que, no final do século XIX, Morelli, Sherlock Holmes e Sigmund Freud faziam exatamente a mesma coisa: buscavam a verdade naquilo que é marginal, involuntário ou desprezado.
- Giovanni Morelli (Arte): Identificava autores por detalhes residuais (orelhas e unhas).
- Sherlock Holmes (Ficção): Resolvia crimes por vestígios banais (cinzas de charuto, pegadas, rastros de lama).
- Sigmund Freud (Psicanálise): Entendia o inconsciente por atos falhos, sonhos e lapsos.
Esses três personagens não estavam usando dados gerais; eles usavam algo diferente. Não eram leitores de dados frios, mas de indícios. Mesmo em áreas distintas, eles aplicavam um método oposto ao de seus colegas de profissão.
Para você ter ideia, Ginzburg revela que Freud leu Morelli e ficou fascinado pelo modo como o médico buscava a verdade no que era “desprezado”.
O berço desse método, que deu origem à psicanálise, é o mesmo berço que consagra o UX e o Product Design hoje. É por isso que é tão difícil olhar para uma pilha de post-its ou um relatório de entrevista e extrair uma solução: porque você não está procurando a média estatística, você está caçando o indício.
Ciências Nomotéticas vs. Ideográficas: Onde o Designer se encaixa?
A grande sacada de Ginzburg foi dividir o conhecimento em duas frentes:
Ciências Nomotéticas (O Modelo de Galileu/Exatas)
Do grego nomos (lei). É o mundo das ciências rígidas que busca criar leis universais e médias estatísticas.
Na Física Clássica (Gravidade): Não importa se você derruba uma maçã, um iPhone ou uma estátua de Morelli. A lei da gravidade será aplicada a todos da mesma forma. A ciência ignora o “objeto” para focar na “lei”.
No Digital: É o pessoal de Vendas, BI ou Data Science puro. Eles identificam o que acontece (o dado frio)
Exemplo: Um relatório aponta que a conversão no checkout caiu 10%. A visão nomotética diagnostica a “febre” (a queda), mas a solução costuma ser genérica, como oferecer um cupom para todos para tentar subir a média novamente. O foco não é entender a causa, mas agir no ponteiro desse dado.
Ciências Ideográficas ou Indiciárias (O Modelo de Morelli/UX)
Do grego idios (próprio). É o mundo focado no caso único e na interpretação de sinais. Interpretar dados indiciários é difícil porque exige abdução, e não apenas dedução.
Na Arqueologia: Um arqueólogo não está interessado em saber a “média de como as civilizações comem”. Ele foca naquela única lasca de cerâmica encontrada em uma camada específica de terra. Se a cerâmica tem um pigmento que só existia a 2.000 km de distância, esse detalhe marginal prova uma rota comercial que nenhuma “lei geral” preveria.
No Digital: É o UX e o Product Designer agindo como detetives de rastros. Mapeando jornadas, criando personas e realizando entrevistas.
Exemplo: Ao investigar a mesma queda de 10%, o designer não olha apenas o gráfico de abandono; ele observa o rastro. Ele nota, através de um mapa de calor ou sessão gravada, que os usuários clicam repetidamente no ícone de “olhinho” da senha ou voltam três vezes para apagar o que digitaram.
O indício revela: o problema não é o produto ser caro ou o frete ser alto. O indício mostra que a regra de complexidade da senha criou um atrito insuportável.
O usuário desiste por exaustão cognitiva em um detalhe que a outra equipe negligenciou completamente.
Conclusão: Por que somos diferentes?
A confusão sobre nossa área acontece porque tentam nos encaixar à força nas “Exatas”. Embora utilizemos os mesmos dados que outras áreas, nossa essência é Ideográfica.
O desenvolvedor constrói a regra (Nomotética) para que o sistema funcione, mas o Product Designer investiga o desvio (Indiciário) para que o sistema seja usado. Não somos de humanas puras, nem de exatas frias; somos detetives de vestígios.
Muitas vezes, quando criamos personas, mapeamos jornadas ou entrevistamos usuários, o que realmente procuramos é aquela pista marginal, o “lóbulo da orelha” de Morelli que tem o poder de mudar o curso da experiência e o sucesso do produto.
Se você trabalha com UX ou Product Design, aceite seu crachá de investigador. Da próxima vez que olhar para uma pilha de post-its, lembre-se de Giovanni Morelli: a resposta que você busca quase nunca está no centro do quadro, mas sim nos detalhes que todo mundo decidiu ignorar.