Por Giovanni Sonnberger - 2 de março de 2026
Espartilhos digitais: Quando o design system e o Figma resgatam a aristocracia do século XVII e a classe social do usuário
Quando comecei a montar as minhas primeiras personas, a primeira coisa que me causou estranhamento foram os campos clássicos: Quanto ganha? Onde mora? Onde estudou? Devido a experiências e leituras posteriores, eu sabia que o que estava sendo escrito ali não eram somente dados jogados: era a descrição bruta da distinção social. Mas, afinal, o que o preenchimento de um perfil de usuário tem em comum com o Figma, o Design System e o século XVII na França?
O design do físico: vamos falar de fisicalidade
Você já deve ter entrado em uma loja da Apple, uma boutique de grife ou um museu minimalista e sentido aquele estranhamento (uma mistura de reverência e desconforto). Se você sentiu ou não, saiba que essa experiência não é um acidente é a fisicalidade do design moldando o seu comportamento.
Agora, faça o exercício inverso: imagine-se no Mercadão de São Paulo, no meio da gritaria de uma feira livre ou revirando a bagunça organizada de um brechó de igreja. O estranhamento é outro, não é? A forma como você pisa, fala e toca nos objetos muda drasticamente.
Enquanto você processa essa mudança de atmosfera, vamos ancorar nosso navio no século XVII, na França. É lá que o espartilho, começa a apertar o corpo e a sociedade para que todos se encaixem no lugar certo.
Os códigos de legitimização da aristocracia
O “bom gosto” sempre foi a arma mais eficiente para manter a porta fechada, mesmo para quem tinha a chave do cofre. A aristocracia do século XVII entendeu cedo que dinheiro é volátil, mas o hábito é hereditário. Se você quisesse entrar no jogo, não bastava pagar a entrada, você precisava provar que o seu corpo tinha sido moldado desde o berço para aquele ambiente.
O aristocrata não suava, não se apressava e, acima de tudo, não demonstrava esforço físico. Se você fosse um comerciante enriquecido, por mais que vestisse seda, a sua forma de caminhar ainda carregava o peso do trabalho, a pressa do lucro e a falta do jogo de cintura exigido pela etiqueta de Versalhes.
O design desses espaços era a extensão da própria etiqueta. O espartilho rígido impedia qualquer gesto de trabalho, os talheres complexos, usados em ângulos específicos serviam para humilhar quem não aprendeu a segurá-los desde a infância. Se você se sentasse na poltrona do jeito errado ou tocasse em uma tapeçaria proibida, o ambiente inteiro gritava que você não pertencia àquele círculo. O ambiente físico não era feito para ser funcional, era feito para testar a sua legitimidade. Este lugar não é para quem produz, é para quem apenas contempla.
A Interface como Versalhes na era Digital
Agora pulando para o digital e como tudo isso foi importado, adaptado e é amplamente usado até hoje para produtos e experiências que você conhece muito bem, olha aí o código de classe sendo imcorporado no meio digittal:
O Vazio e o clean como Ostentação
Os enormes espaços vazios que voce vem em um palacio, museus e em lojas de grife (que são ambientes destinados a uma elite) estão presentes em diversas interfaces seguindo a risca os mesmos moldes, não é para ser funcional, não é para quem não tem tempo, não é para quem não entende.
A Curadoria do Esforço
Os ícones sem rótulo e as tipografias “agulha” são o teste do brasão moderno. Se você precisa que esteja escrito “Perfil” ou “Configurações” embaixo de um símbolo abstrato, você ainda carrega o sotaque do esforço, a marca de quem não nasceu dominando o código. O design de elite é mudo para quem não é iniciado; ele enterra a ajuda e o suporte em rodapés invisíveis porque pressupõe que, naquele salão, ninguém precisa de instruções brutas. É a estética da exclusão: se a sua visão não é perfeita ou se a sua tela não é de última geração, a interface simplesmente desaparece para você, sinalizando que aquele conteúdo não foi desenhado para os seus olhos populares.
O Capital Cultural da Interface
Para ilustrar esse abismo de classe no design, vamos comprar este produto na Magazine Luiza (o “Mercadão” digital) com o Estúdio Bola (a “Galeria” de elite). A diferença não está no produto, mas na etiqueta da venda.
(Popular) O Grito: “SÓ HOJE”, “OFERTA RELÂMPAGO”. O foco é na vantagem lógica (preço/oportunidade). O design é barulhento para impedir a reflexão.
(Popular) Parcelamento: Destaque para o “24x no cartão da loja”. O design foca na parcela que cabe no bolso, validando sua renda e economia de sobrevivência.
(Popular) A Bula: Textos gigantes, listas técnicas infinitas. É preciso provar por que vale cada centavo. A informação bruta tenta justificar o gasto
(Versalhes) O espartilho: O design não vende, ele concede. No Figma, o silêncio visual é a maior das ostentações: substitui-se o desespero do varejo por espaços vazios e fontes discretas, partindo do pressuposto aristocrático de que seu capital é garantido. Se a interface esconde o preço ou omite explicações técnicas, ela está reforçando o código de classe: se eu precisar explicar por que isso custa caro, você já provou que não tem o “corpo moldado” para pertencer a este círculo.
A Distinção: A sociologia por trás do seu grid
Para você não achar que essa acidez é delírio da minha cabeça, vamos convocar o pai da sociologia da distinção: Pierre Bourdieu. Em sua obra máxima, A Distinção (1979), ele demonstra que o “gosto” não é um dom divino ou um talento nato, mas uma arma de classe refinada para manter cada um no seu devido lugar.
Capital Cultural: É o repertório que te permite navegar pelo vazio. Se você reconhece o significado de um ícone abstrato sem legenda, você tem o capital; se precisa que esteja escrito “Perfil” para saber onde clicar, você é o analfabeto visual que entrou no salão errado.
O Apreciar e o Precisar: No varejo popular, o design é feito para a pressa de quem está no intervalo do trabalho ou no ônibus; é tudo no seu rosto, rápido e mastigado. No design de elite, a interface se dá ao luxo de ser lenta, com animações fluidas e caminhos longos. O sistema pressupõe que você tem tempo para contemplar. Se você fica impaciente ou não entende por que a página “demora” para revelar o conteúdo com elegância, você denunciou sua classe: o aristocrata nunca tem pressa, mas quem produz não pode perder um segundo.
Resumo, ou Por que estou batendo nessa tecla?
Copiar um template clean no Figma não resolve nada se o produto ou modelo de negócio não sustenta o silêncio. Não dá para vender shampoo de prateleira de mercado para um publico genérico com a interface da Aesop.
O designer precisa ser sociólogo: criar cenários digitais não é organizar botões, é entender qual papel o usuário quer interpretar. No fim, o layout revela se ele vai se sentir confortável, um convidado de honra, ou um intruso tentando entrar em uma festa que não é dele.
Focar apenas em padrões psicológicos (como a Lei de Hick ou Fitts) resolve a funcionalidade, mas não o sentimento de pertencimento. Se o layout ignora o contexto social, ele pode até ser “fácil de usar”, mas será culturalmente irrelevante para o usuário e para o nicho de mercado.
A pergunta não é apenas quem são esses usuários, mas quais códigos de classe eles dominam. É sobre mapear estilos de vida, posição social e o peso das tarefas que pretendem realizar.
Ignorar isso é projetar no escuro. Criar uma interface sem entender o contexto sociológico é como tentar entrar em um jantar de gala usando gírias de arquibancada: você até consegue falar, mas ninguém vai querer te ouvir. No fim, o design não organiza apenas fluxos; ele valida quem pertence e quem está apenas de passagem.